4.11.05

O Ensino de Filosofia

Ao falar-se de ensino de Filosofia, surge basicamente a questão da existência ou não de uma didática especifica ao processo de ensino-aprendizagem filosófico. Tal pergunta configura-se como fundamental, dado que, a orientação da postura pedagógica do professor de Filosofia deve voltar-se primeiramente a compreensão da natureza do processo de aprendizagem em Filosofia, para num momento subseqüente operar com essa compreensão na busca de uma utilidade pública à Filosofia, sendo esse, o grande desafio do professor de Filosofia.
O ensino de Filosofia, historicamente no Brasil, operado de forma obtusa, a saber, devido ignorar as necessidades sociais e culturais da população, antes da desvinculação de instituições teológicas mostrou-se como dotado de uma didática apenas voltada à produção e reprodução de alguns conteúdos filosóficos, donde se extraem conseqüências desastrosas, que vão desde uma dependência-, agora já substancialmente superada-, de recorrer as instituições de exterior para problemas peculiares a nós brasileiros, a um distanciamento público, pois o mesmo torna-se hermético na medida em que reproduz apenas um conhecimento, não situando na intenção do sujeito da aprendizagem, e por conseqüência inviável a estudos não acadêmicos.
Nessa concepção, historicamente presente no ensino de filosofia no Brasil, é evidente o papel do professor, que deve ser o interlocutor entre o “senso comum” e os “esclarecidos” e tem como sumo bem o carregar dos comuns ao mundo dos sábios. Tal concepção, além de fundadora de um conservadorismo sem escrúpulos, pois fixa os objetivos do filosofar e do conhecer num mito do científico, em alguns casos leia-se status quo, volta o foco do processo ao fim, ao produto do filosofar já dado externamente, e não a potência de realizá-lo, ao adequar as suas necessidades e intenções.
Na prática do ensino de filosofia, três questões são vislumbradas, uma que diz respeito ao conhecimento filosófico, outro ao processo (filosofar) e do ensino à outro do filosofar ou da filosofia. Das duas primeiras características já há uma inclinação a supor de que a filosofia deve ser ensinada através de uma didática diferenciada de outras que dizem respeito às ciências naturais ou até mesmo das outras ciências humanas, dado que, a identificação do objeto próprio dela é discutível e um tanto quanto polêmico.
Quanto à terceira questão, sendo nessa que a maior complicação dar-se-á, dado que, ao passo que o outro se depara com a filosofia, tendo esse outro já tido algum contato ou não com a disciplina, surgem daí questões de difícil resposta, como: O que é a filosofia? Para que serve a mesma?
Nesse difícil situação, o professor deve ter buscado através de seu planejamento de aula antever os possíveis caminhos a serem tomados no decorrer da aula, e ao passo que se pede por formulações de utilidade da disciplina e definições da mesma, no caso especifico da filosofia, na medida em que se formulam essas respostas, já está se fazendo de algum modo filosofia, contudo, tais dificuldades são o próprio motor do filosofar.
Tendo em vista os problemas inerentes a transposição de textos filosóficos para outros níveis de compreensão, é de mais valor fixar a possibilidade de um ensino de filosofia enquanto dotada de suas especificidades, à atitude crítica, que em termos lembra o conceito de menoridade kantiano, segundo o qual a menoridade constitui o estado de dependência de uma instancia moral a qual dita os caminhos a serem percorridos, em contrapartida, o estado de maioridade é quando o sujeito atinge sua maturidade intelectual e moral, tendo o mesmo tornado-se senhor de si mesmo, passando a crivas as questões que se lhe põe com judiciosidade.
O professor então está incumbido, antes de tudo, a despertar no sujeito essa postura crítica, essa maioridade intelectual para que no pôr as coisas em julgo o sujeito possa visualizar o necessário do arbitrário, e no decorrer desse processo far-se-á filosofia. E o trabalho que visa o despertar do sujeito a essa consciência crítica, deve estimular através da subjetividade, tendo em conta a vivência e os aspectos culturais gerais do mesmo. Já que a paixão surge por hábito ou projeção, o professor tem de ser o agente catalisador do processo, ativando o sujeito a pensar per si.
A didática será útil nessa empresa, se a pergunta quanto ao “o quê” ensinar relacionada com a pergunta “como” ensinar for em algum sentido instigante ao aluno, pois pensada como uma técnica de aplicação de conteúdos através de uma forma, é obsoleta, pois da pergunta “o quê” sempre implicará outra pergunta, a saber, “como” ensinar. Entretanto, por não termos uma metodologia bem edificada temos dificuldade de visualizar os resultados e de traçar objetivos claros, e se pode dizer que se existe uma didática própria a filosofia, é nesse sentido de incitar.
Referência Bibligráfica:
ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil. 13. ed. Petrópolis:Vozes, 1991.
GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. História da Educação. SP: Cortez, 1990.
KOHAN, Walter O. Filosofia: caminhos para seu ensino. Rio de Janeiro, DP&A, 2004.

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